O marcador de texto

Olá Ilhados !
Há uns dias atrás postei um texto do Veríssimo chamado Mudanças depois um sobre o trema. E acabei formando uma nova categoria para Ilha, Textos. Particularmente, eu adoro e guardo os que eu mais gosto no computador. Resolvi dividir isso com vocês, pode não ter taaanto haver com o tema, mas ninguém pode falar que não é uma arte, certo ?
Espero que gostem e enviem sugestões!
O de hoje tenho guardado há bastante tempo no meu computador, peguei num blog, mas não me lembro o nome. É o meu favorito ! =]

“Flame tinha naquela noite algumas 200 páginas de um livro para ler. Teria prova no dia seguinte e daquela noite não poderia passar. Lia um parágrafo, voltava dois. E nesse ritmo seguia a leitura. Foi então que ele teve a brilhante idéia de usar o marcador de textos. Assim, na pior das hipóteses, se não se lembrasse do que havia lido, leria apenas aquilo que estava grifado.

Ao ver sua primeira folha toda grifada, assustou-se e entrou em um momento que beirava a epifania. Notara que ao grifar tudo, nada havia grifado. Não havia falhado apenas em seu intento de leitura, mas havia falhado na vida. Estivera, por toda a vida,cercado por pessoas especiais. Aquelas pessoas ele havia marcado com sua caneta evidenciadora. Mas todas estavam tão evidentes que seria impossível diferir aquelas que realmente importavam. Talvez tivesse gastado muito de sua tinta com palavras inexpressivas ou insignificantes. Percebera naqueles dois minutos de digressão que conferir importância a tudo é o mesmo que não conferí-la a nada.

Era tarde e “A ética protestante e o espírito capitalista” ainda estava por ser lido. Era melhor não submergir nos pensamentos. Melhor não deixar nada fluir. Era tempo de absorver, e não de verter. Mas porquê havia grifado tanto?Não era possível que toda uma página fosse de fato essencial à compreensão. E quanto às pessoas? Quem seria mesmo importante?

Sossegou pois nada poderia fazer. Já havia grifado e a folha era única. A folha é única. Procurou algo que o fizesse lembrar cada conhecido. Estava decidido a fazer um resumo. E, embora o avançar do tempo, não era o texto que resumiria.

Viu sua bola de baseball lembrou-se de Bryan. Quanto tempo não lembrava-se de Bryan? Ainda bem que a bola ainda estava lá. Passou horas lembrando de cada um que o cercava. Todos continuavam sendo importantes. A folha continuava completamente marcada. Horas tinham se passado mas ainda não conseguia encontrar um objeto que o fizesse lembrar de Stephanie. Tinha que existir algo que o fizesse lembrar-se dela.

Ao amanhecer do dia, percebera que o resumo estivera ali todo o tempo. Stéphanie havia sido a única de quem se lembrara sem a necessidade de um objeto para fazê-lo. Admitir a necessidade de algo que o fizesse lembrar dela, seria admitir que um dia poderia esquecê-la. Descobriu naquela noite que as pessoas que realmente importam são aquelas de quem se lembra sempre, sem pretexto, momento ou condição. Simplesmente estão ali. Estiveram ali e estarão ali, mais fortemente grifadas. Destacadas de algum modo na folha única que é a vida.”

Mari Boaretto

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